No fim do dia percebo que tudo valeu a pena
Publicado em fev 3, 2022

Por Ariane Gray

Após terminar a Faculdade, onde concluí o Curso de Turismo, fui contratada por uma companhia aérea americana com sede em São Paulo. O que mais me atraiu foram o bom salário e poucas horas de trabalho por dia, algo raro nessa indústria. Como precisava fazer um treinamento no Texas/EUA foi necessário fazer o meu visto de turismo (B1/B2).
Tudo pareceu super providencial pois meses depois eu comecei a conversar com aquele que hoje é o meu marido.  Foi de um jeito pouco convencional que nos encontramos. Eu estava pesquisando na internet sobre procedimentos médicos para uma história que eu estava escrevendo, por hobby, e acabei encontrando a Comunidade (Fórum de Discussão Internacional), em inglês, que reunia homens com deficiência e algumas mulheres interessadas nesse tema.
Muito curiosa que sou comecei a investigar. No início, fiquei só observando por um bom tempo até que resolvi criar uma conta e me juntar a conversa. Eu falava praticamente só com as meninas que que faziam parte daquela Comunidade, explorando como era esse tipo de atração e relacionamento, sem nenhuma expectativa, mas nunca imaginei conhecer alguém dessa forma.
Um dia fiz um post naquela Comunidade falando sobre a minha curiosidade e alguns questionamentos, então o meu, naquele momento futuro marido, deixou um comentário e mais tarde ainda me mandou uma mensagem privada e começamos a conversar. Foi tão estranhamente natural e fácil a nossa interação que começamos a nos apaixonar.
Meses depois viajei para conhecê-lo pessoalmente aqui na Flórida uma vez que eu tinha o visto e os benefícios de viagem por trabalhar na companhia aérea. Namoramos a distância por 2 anos até que em uma das minhas visitas ele fez o pedido de casamento! Desapegada que sou, resolvi já ficar por aqui com nada mais do que a mala de mão que eu tinha trazido naquela viagem e assim começou uma nova etapa em minha vida. Pensar em casamento, festa e a mudança de status (de turista para esposa) o tal do Green Card.
Nunca considerei viver nos Estados Unidos, nunca foi um plano ou sonho meu. Sempre me pareceu uma realidade idealizada demais, em evidência demais, cobiçada demais e com tudo isso “pesada” demais. Então para mim foi, e continua sendo, uma situação muito estranha me ver de repente atolada não só nas exigências burocráticas da situação, mas também na teia de desconfianças que vem embutida nesse processo todo. O governo do país pedindo pilhas e pilhas de papéis como prova de que realmente nos amamos, a longa espera por um documento para poder começar a vida de verdade, e mais a família, os amigos, todo mundo fazendo perguntas, desconfiando, sondando, testando a gente o tempo inteiro. É uma carga de stress que faz a gente até esquecer daquele brilho que existiu no começo da relação e esquecer de como tudo se encaixou perfeitamente porque era pra ser. Quem mandou você amar um americano, né? Agora pague o preço!
Montando nosso processo tivemos que adaptar algumas coisas pelo fato do meu marido ser deficiente e receber pensão por invalidez do Social Security. Começando pela comprovação de renda mínima obrigatória do Sponsor. A renda do meu marido, mais o que eu tinha em bens e dinheiro para trazer do Brasil até seria o suficiente, percebo que muitas pessoas esquecem que nós podemos adicionar no processo também os bens do imigrante para complementar o que faltar na renda do Sponsor, mas o problema era que a renda de Social Security do meu marido não valia para esse fim e também ele nunca havia feito declaração de imposto de renda porque não é obrigatório na situação dele. Pelo menos nas regras que vimos na época que aplicamos nós não poderíamos usar nada da renda dele no formulário financeiro e entendemos que não poderia ser só os meus bens, então precisaríamos incluir um Joint Sponsor, que foi o pai dele. Primeiro obstáculo vencido!
Depois chegou a vez das contas bancárias, aluguel ou financiamento de casa, contas de casa, carro, plano de saúde … que a imigração pedia para ver comprovantes com ambos nossos nomes. Não tínhamos nada disso! NADA!
Aplicamos logo depois do casamento vivendo com os pais dele e eu ainda uma turista sem conta bancária ou um carro. Meu marido não tem como dirigir e não possui um veículo em seu nome, logo não tinha como me adicionar ao seguro.
O plano de saúde dele é Medicaid e Medicare por invalidez, diferente do que uma pessoa com um emprego normal teria e poderia adicionar a esposa, então também não tínhamos plano de saúde juntos como prova. Ele não pode ter conta bancária ou bens no nome dele que excedam US$2.000 senão ele perde os benefícios médicos através do Medicaid, assim ele usava uma conta no nome do pai dele e não dava para termos conta conjunta. Que pesadelo!
O que fizemos instintivamente, sem encontrar nenhuma orientação sobre isso, foi explicar o porquê de não termos esses documentos, ao invés de simplesmente não mandarmos nada. Adicionei uma “folha explicativa” para cada item que eles pediam e descrevemos a situação dele, das regras do Medicaid, que a casa pertence aos pais dele e os demais detalhes na fé de que iria ser suficiente e funcionar, pois o que mais poderíamos fazer? Não dá para mudar a realidade dele! E claro, mandamos tudo o mais que tínhamos como prints do site onde nos conhecemos e das nossas conversas, fotos, comprovantes das minhas viagens para vir vê-lo e as infames cartas de membros da família atestando a veracidade do nosso relacionamento, que dá muita vergonha e incômodo de pedir!
Foi então que entrei no grupo do Facebook da Geovanna meses depois de já ter aplicado e via que muitas pessoas tinham dúvida e acabavam se desesperando, quando não tinham alguma das provas que eles pediam por alguma circunstância diferenciada na vida delas. E como praticamente tudo foi diferenciado no nosso caso eu tentava me aconselhar. Foi lá que vi a dica de falar com o Congressman para agilizar o Combo Card que já estava atrasado, e com isso tivemos a nossa entrevista e meu Green Card chegou em 7 meses de processo! Aleluia! Aquela paz que só dura 1 ano e meio e aí já temos que pensar no processo de remoção de condições, né?
Na hora de fazer a remoção de condições, graças a Deus, eu já tinha convencido a família a mudar algumas coisas, como passar a pensão do meu marido para uma conta no meu nome, já que não pode ser no nome dele mesmo. Como se isso fosse assunto para a família se meter e não um assunto restrito entre marido e mulher, não é mesmo gente? A privacidade do casal internacional e inter-hábil não existe?
Nesse período comprei meu carro com seguro e meu plano de saúde com o nome do meu marido aparecendo lá, então nós tínhamos um pouco mais das evidências solicitadas pela imigração, mas ainda mandei o processo com explicações de tudo assim como o primeiro. Ainda estou esperando esse processo e logo mais poderei aplicar para a cidadania e me livrar de todos esses processos de uma vez por todas!
É uma viagem lembrar de como tudo aconteceu, de como vim parar aqui tão inesperadamente, da dificuldade que é um processo de imigração e adaptação a uma nova cultura. Eu já tinha bastante experiência viajando, estudando e vivendo em outros países temporariamente, me considerava uma cidadã do mundo e pensei que seria super fácil para mim passar por tudo isso, mas não foi! Visitar e se mudar são duas coisas bem diferentes, e a forma como as outras pessoas te enxergam quando você é um visitante só gastando seu dinheiro no país deles e quando você é um imigrante também é diferente. No momento em que aplicamos para o ajuste de status parece que viramos automaticamente uma pessoa de segunda classe, que veio suja e descalça de algum “buraco” qualquer. Existem julgamentos sobre os motivos de você estar aqui, de ter se casado, suposições sobre seu país e sua realidade baseadas em estereótipos de filmes e da TV. Cansa demais navegar nessas tempestades de tentar mostrar como a minha vida realmente era, todas as experiências e possibilidades que eu tive, e que eu não estou atrás de cidadania americana. Mas no fim do dia, tudo vale a pena para estar com o meu lindo e amado “batatinha”!

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