“Não volta mais né?”, “Foi pra ficar né?”, “Qual é o plano depois da faculdade?”, “Tá louca! Nem pense em voltar para o Brasil”… Algumas das expressões que me acostumei a ouvir toda vez que ia passar férias no Brasil durante os 10 anos em que vivi nos Estados Unidos. O sonho sempre foi a faculdade – estudar nos EUA. Aprendi o “college application process”, fiz o SAT, college essay, scholarship applications, pesquisei as faculdades, as cidades. Acabei indo para University of Denver no Colorado. Nunca esqueço o dia que cheguei, no shuttle do aeroporto para a universidade, completamente sozinha, aos 18 anos, lágrimas escorreram a minha bochecha, lágrimas de uma mistura de nervoso e felicidade: “I made it!”.
Rapidamente descobri como o americano é diferente do brasileiro, as amizades parecem não serem tão orgânicas. A faculdade organizava “mixer events” com a intenção de promover formações de novas amizades e grupos, o que é ótimo, mas para mim muita coisa me parecia muito fabricado. Enquanto no Brasil as amizades se formavam naturalmente, frequentando lugares, na sala de aula, conhecendo amigos de amigos; e os eventos eram mais no estilo, vamos na casa do fulano fazer um churras e tomar uma breja, nos Estados Unidos eu nem poderia legalmente tomar uma breja por 3 anos e os eventos tinham hora para acabar.
A saudade apertou, e o tipo de solidão que se sente mesmo rodeado de gente se instalou. O sonho e a realidade eram muito diferentes. Sei de muitas pessoas que se adaptam mais facilmente ao estilo americano, mas naquele momento da minha vida descobri que aquilo não me faria feliz.
No final daquele ano decidi mudar, ou voltar para o Brasil ou ir para um lugar mais familiar. Transferi, então, para University of South Florida, em Tampa. Quatro anos de faculdade em Tampa, muitos amigos brasileiros, alguns americanos. Cada ano, quando chegava as férias também chegava o nervosismo de garantir que toda a documentação de imigração estava correta e atualizada. Cada retorno aos Estados Unidos aquele frio na barriga e suor nas mãos na fila da imigração no aeroporto.
Com a formatura se aproximando, decidi voltar para o Brasil. Sabia que o visto de estudante me permitia trabalhar nos Estados Unidos com o OPT por um ano após me formar e mais dois anos depois disso por meu diploma ser na área da engenharia. Apesar daquelas frases ecoando na minha cabeça “não seja louca de voltar para o Brasil”, pensava que meu sonho havia sido realizado e era hora de voltar. Tendo o sonho realizado (e acabado), passei por um período de me sentir perdida, sem propósitos, sem sonhos. Foi quando uma amiga me disse “pelo menos tente!”. Após a formatura eu teria até 60 dias para encontrar um emprego, se não encontrasse nada deveria voltar para o Brasil. É impressionante como as vezes um why not? pode mudar sua vida completamente.
Trabalhei como engenheira na área da construção na Florida por 3 anos. Mergulhei na cultura workaholic. Segunda a sexta das 6 da manhã às 6 da tarde mais muitos sábados, dez dias de férias por ano, ganhei 15 quilos por falta de tempo ou energia para cozinhar e me exercitar, bebia mais do que antes… mas aquele cheque gordo em dólar caindo na conta a cada duas semanas fazia tudo valer a pena, certo? Não, mas havia algo mais. Apesar de tudo, estava muito feliz e realizada. Mas o fantasma da incerteza ainda pairava, o peso e a prisão de ser imigrante, de ter suas escolhas limitadas. Depois de 3 tentativas pela minha empresa de aplicar para o meu visto de trabalho H1B e nas 3 não ter sido selecionada na loteria, restava apenas uma opção. 8 anos haviam se passado, hora de voltar pra casa.
Só que não, quando fazia minhas malas e começava a vender minha mobília resolvi aplicar para apenas um programa de mestrado, mas não esperava nada. Acabei não só sendo aceita, mas também recebi oferta de uma bolsa para pesquisa. Uma semana antes de começar o mestrado na University of South Alabama, conheci um tenente da força aérea numa balada. Um ano depois nos casamos.
“Não volta mais né?”, “Foi pra ficar né?”, “Qual é o plano depois da faculdade?”, “Tá louca! Nem pense em voltar para o Brasil”… Por muitos anos essas perguntas me irritavam. O fato de que a maioria das pessoas acreditavam que a vida nos Estados Unidos é sempre melhor. Eu respondia com um “não sei”, mas na verdade pensava, “meu plano é pegar meu diploma e voltar, fazer o que puder para melhorar meu país, não fugir dele”. Hoje vejo que essa é uma ideia mais nobre e idealista do que realista. No entanto, para mim, o Brasil será sempre a minha casa, o povo brasileiro sempre será com quem eu me sinto mais à vontade, o português sempre será minha primeira língua. Cinco anos atrás o que me fez ficar foi oportunidades de carreira. Mas agora é algo muito maior. Vejo o motivo de Deus ter de uma forma ou de outra me mantido nesse país todos esses anos, sempre foi para que um dia eu encontrasse o homem da minha vida.
Os desafios não acabaram, longe disso. Agora estamos passando pelo processo de aplicação pelo Green Card. Mas essa não chega nem a ser a parte mais difícil. A distância das pessoas que amamos e as incertezas do mundo só se amplificaram por conta da pandemia. Também decisões futuras, onde criar meus filhos, perto dos avós, primos, tios no Brasil, ou no país onde os carrinhos de bebes são muito mais acessíveis. Os desafios de ser imigrante, de ser um forasteiro, não acabam quando finalmente temos todos os documentos e direitos em mãos. O maior deles pode ser resumido naquela palavra que popularmente é famosa por não existir em nenhuma outra língua: a saudade.
Por Heloisa Pelanda Murphy


Lindo depoimento! Deus no controle sempre, vai dar tudo certo!
Que legal!!! Eu moro na região de Tampa e estou penando pra entender como funciona faculdade, mestrado e como fazer algum degree aqui! 😬 😘
Aí Helo que orgulho!!! Deus faz as coisas de maneiras que não imaginamos mesmo!! Eu sempre olhava pra vc estudando aqui e seu exemplo me inspirava, e hoje estamos aqui nós duas vivendo o que Deus tinha separado pra nós!! Deus continue abençoando vcs!! Beijinhos, Vivi