Você é mais que suficiente, acredite!
Publicado em jun 28, 2022

Por Mariana Clements

Concluí o Curso de Psicologia no Brasil em 2014. Foram cinco anos muito intensos, de trabalho e estudo, de perrengues e superações. Entrei na faculdade de Psicologia já decidida a seguir carreira em Recursos Humanos, e no meu segundo semestre comecei um estágio numa multinacional. Ao longo da minha graduação fiz outros estágios, bem como trabalhos efetivos, todos na área de Recursos Humanos.
No meu último estágio, quando me formei, um dos conselhos que minha gerente me deu antes da minha saída foi: “faça um intercâmbio e leve seu inglês para um nível fluente, isso vai te colocar à frente no mundo coorporativo”. Na época eu não dei muita importância. Honestamente, depois de cinco anos de faculdade, oficialmente sem trabalho, intercâmbio não era nem mesmo uma opção para mim, financeiramente falando.
Na época, consegui uma vaga efetiva como analista de Recursos Humanos e tentei alavancar minha clínica particular nos meus horários livres. Mas embora eu amasse o que eu fazia, eu me sentia estagnada. Foi então que, conversando com um amigo americano que
mora na cidade onde cresci, o assunto “Au Pair” surgiu. Eu já sabia sobre o programa, e quando era mais nova tive muita vontade de fazer, mas depois de formada, aos 25 anos, jamais passou pela minha cabeça me tornar Au Pair. Para encurtar a história, essa conversa aconteceu no início de 2016 e no dia 23 de outubro daquele mesmo ano eu estava desembarcado em NY com um grupo
de meninas pela Au Pair in America. Meu plano era ficar um ano, estudar, focar no inglês assim como minha gerente havia sugerido, voltar para o Brasil e recomeçar minha carreira em Recursos Humanos. Vale ressaltar que eu não tinha experiência com crianças e nunca imaginei cuidar de uma, que dirá de três! Mas minha experiência como Au Pair foi incrível! Eu fiquei dois anos com a mesma família e, no final do programa eu não sentia que era hora de voltar. Apliquei para o College para o curso de Business Administration and Management, e fui me virando como babá.
Com o tempo e experiência, fui identificando as coisas que gostava e não gostava, aprendi a falar não, negociar e, o trabalho de babá que, por um certo período chegou a ser uma tortura para mim, finalmente passou a ser recompensador. Mas no fundo, eu ainda tinha aquela sensação de “eu sou só babá, eu não tenho um trabalho de verdade”.
Quando recebi minha autorização de trabalho, no início de 2022 eu imediatamente comecei a procurar um trabalho na área de Recursos Humanos e para minha surpresa tive um retorno muito positivo de recrutadores e recebi convites para muitas entrevistas. Em menos de três meses eu estava recolocada como Coordenadora de Recursos Humanos numa empresa de Serviços de Saúde em MA. Assim como todo imigrante, eu enfrentei desafios no meu processo de recolocação profissional no mercado americano. Abaixo eu listei alguns desafios que vivenciei nesse processo e inclui falas que geralmente escuto de outros imigrantes que querem mudar de
área, mas ainda se sentem inseguros:

  • GAP no currículo: a última experiência em Recursos Humanos no meu currículo era de 2016, ou seja, eu tinha quase seis anos de GAP no currículo. Se esse também é seu caso, meu conselho é: inclua o que você fez no período que estava fora do mercado. Se você foi babá, você pode incluir a experiência usando palavras como “Child-care specialist”, “Child-care provider”, “Child-care worker”, “House manager”. Jogue com as palavras para que seu currículo tenha um tom mais profissional. E não minta! As empresas vão pedir referencias dos seus últimos empregos!
  • Entrevista: eu confesso que minhas primeiras entrevistas foram um desastre! Hoje em dia a grande maioria das entrevistas são em vídeo e, particularmente, eu me sinto muito mais confortável fazendo entrevistas pessoalmente. Minha dica é: treine muito! Mas não decore falas. Seja natural e espere responder perguntas como: “tell me about yourself”, “why do you want to work here?”, “how has your experience prepared you for this role?”. Se prepare para dar respostas que estejam relacionadas com a vaga. E lembre-se, a entrevista não é momento de falar da sua vida pessoal ou da sua situação imigratória.
  • Inglês: O inglês em si não foi um grande problema para mim, mas meu sotaque me fazia (ainda faz) com que eu me sinta insegura em entrevistas e no meu ambiente profissional. Se você se sente insegura(o) em relação ao seu inglês, eu te adianto: seu inglês é suficiente! Os Estados Unidos é um “melting pot”, e as pessoas estão acostumadas com essa avalanche de diferentes sotaques. Se você sente que precisa melhorar, faça cursos online, procure um tutor nas bibliotecas públicas, mas não assuma que seu inglês não é suficiente para o mercado americano antes mesmo de tentar.
  • “Eu ganho mais como babá”: Essa frase todo mundo que é da bolha das babás já ouviu ou já falou alguma vez. Infelizmente, quando a gente tem um gap muito grande no currículo como era meu caso, e/ou zero experiência no mercado de trabalho americano, em alguns casos é necessário baixar a pretensão salarial. Mas veja, não são todos os casos em que isso se faz necessário. Existem tantas variáveis quando o assunto é salário. Primeiro, o trabalho como babá não tem projeção salarial (1). Eu fazia um valor razoável como babá, mas eu fiquei 3 anos e meio com o mesmo valor de hora trabalhada, nunca tive um aumento. Geralmente numa empresa, seu desempenho é avaliado periodicamente e aumentos oferecidos numa avalição anual podem variar de 3-7% dependendo do seu desempenho. Ou seja, mesmo sendo uma pessoa “média”, numa empresa que pratica avaliação por desempenho você receberá ao menos um aumento por ano na sua avaliação anual (2). Outro fator importante a ser considerado é seu plano de aposentadoria. Se você já está aqui na terra o Tio Sam por um tempo, você provavelmente já percebeu que aposentadoria aqui é um luxo que só aqueles que fizeram um planejamento terão. Muitas empresas fornecem o 401k, que é como se fosse uma previdência privada. Você escolhe a porcentagem que deseja contribuir por mês e muitas empresas fazem o “match”. Por exemplo, se você escolhe separar 12% do seu salário para seu 401k e a empresa “match” 50% do valor, você contribuirá com 18% sendo que 6% foram pagos pela empresa (3). Outro detalhe é que, quando você trabalha formalmente você terá descontos, mas parte desses descontos vão para o seu Social Security e Medicare, que também são benefícios que você resgata depois de completar 65 anos. Além desses benefícios, empresas geralmente terão disponíveis planos médico, odontológico, de vista, seguro de vida, entre outros (4). Você pode até ganhar “mais” como babá agora, mas uma carreira no país que é uma grande potência econômica mundial com certeza te trará muitos outros benefícios e oportunidades a longo prazo. Pense nisso!
  • “A minha experiência no Brasil não conta”: Isso não é verdade. A sua experiência no Brasil conta. O que você precisa é apresentá-la de maneira atrativa. A sua experiência como babá, faxineira, garçonete também contam! Toda experiência nos traz o que eles chamam de “transferable skills”. Nessas experiências você aprendeu coisas como “time management”, “listening skills”, “ponctuality”, “motivating others”. Até mesmo um hobby pode te ajudar a desenvolver transferable skills. Por exemplo, se você joga xadrez como hobby, você pode falar que isso te ajudou a desenvolver a habilidade de “solving complex problems”. Resumo: saiba se vender e saiba negociar.
  • Currículo: Não basta apenas ter a experiência. Você precisa saber contar a história da sua carreira de uma maneira que faça sentido para o recrutador. Isso envolve estudar descrições de vagas que você julga que se assemelham as experiências que você teve no Brasil, adequar seu currículo com palavras-chave e escrevê-lo de maneira que reflita suas competências para cada cargo que você aplica. Isso leva tempo e dedicação. Não é só traduzir o currículo. Como dizem por aqui: “looking for a job is a full time job”.

O mercado americano é dinâmico e cheio de oportunidades para aqueles que desejam um lugar ao sol e lutam por isso. Enquanto imigrantes, a parte mais difícil nos jáfizemos: empacotamos nossa vida e sonhos cobertos de incertezas e saudade em uma mala de 23kg e chegamos até aqui. Se você tem dúvida se tentar trabalhar na sua área nos EUA vale a pena, a resposta é: SIM, VALE MUITO A PENA! Não é pelo salário, pelos benefícios ou pelo status, mas pela satisfação de olhar no espelho e falar: eu consegui. E sim, você é mais que suficiente!

Sou Mariana, tenho 32 anos, sou Psicóloga de formação, Coordenadora de Recursos Humanos e Recrutadora para uma empresa de Home Health em Massachussetts e Master of Human Resources candidate na Framingham State University.
Se você quer tirar dúvidas sobre o mercado de trabalho nos EUA, como estudar e morar nos Estados Unidos ou simplesmente contar sua história conecte-se comigo pelo LinkedIn e será um prazer falar com você!

https://www.linkedin.com/in/mariana-clements-17b0a728/

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  1. Me refiro aqui a plano de carreira e não a combinados específicos entre a babá e o empregador;
  2. Valores foram utilizados de forma ilustrativa. Aumentos salariais e promoções variam de acordo com a
    cultura e plano de carreira de cada empresa;
  3. Valores e tipos de contribuições variam de empresa para empresa;
  4. Benefícios listados a título de exemplo, pacotes de benefícios variam de empresa para empresa.
2 Comentários
  1. Bruna Luke

    Muito obrigada por compartilhar a sua experiência e tantas dicas valiosas. Essa transição é complexa e muito gratificante. O conhecimento do mercado, da empresa e principalmente de si mesmo como profissional é a chave para o sucesso. Ter aliados nessa fase nos deixa mais confiantes e traz muitos benefícios não só pra nossa carreira mas para nossa vida pessoal. Let’s empower each other!

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  2. Gessica

    Amei a sua história te desejo muito sucesso. Eu começei a estudar Bussines Administration e tenho muito interesse nessa area de Recursos Humanos. Boa sorte 🍀 e tudo de bom

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